Seletor idioma

Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Últimas notícias

A cartografia dinâmica da COVID-19 no Amazonas

  • Publicado: Domingo, 17 de Maio de 2020, 22h20
  • Última atualização em Segunda, 18 de Maio de 2020, 13h14

 

Prof. Dra. Natacha Cíntia Regina Aleixo

Prof. Dr. João Cândido André da Silva Neto

Departamento de Geografia/HIDROGEO/UFAM

 

A ciência Geográfica na área das Humanidades, têm desenvolvido estudos em interface com a Epidemiologia e Saúde Coletiva no campo da denominada Geografia Médica e da Saúde. No início de 2020, foi estabelecida a Rede de Geógrafos para Saúde, composta por pesquisadores de instituições públicas de ensino e pesquisa de vinte (20) estados brasileiros, que se organizaram para compreender no espaço-tempo a pandemia da COVID-19 no território e fazer uma cartografia comprometida com a realidade das dimensões socioespaciais do fenômeno.

O objetivo da rede é possibilitar a prevenção e promoção da saúde pela representação da difusão das doenças, mapeamentos de indicadores de vulnerabilidade social e das múltiplas escalas da rede de serviços de saúde no território brasileiro.

O laboratório HIDROGEO do Departamento de Geografia da UFAM que participa da Rede, têm desenvolvido no Amazonas, pesquisas na escala estadual e local para compreender as relações socioespaciais e temporais da disseminação da COVID-19.

A difusão pode ser entendida como a propagação de um fenômeno no tempo e no espaço. Com relação as doenças transmissíveis podemos considerar dois tipos principais de difusão por expansão, a hierárquica e contágio. Também ocorrem tipos de difusão por relocação que representa mudança do fenômeno para nova (s) área (s) e difusão híbrida que integra a expansão e relocação. (CATÃO, 2016)

Por expansão, a difusão hierárquica é relacionada a posição da cidade na rede urbana e seu papel de centralidade, como por exemplo de uma metrópole que comanda a rede urbana. A hierarquia está aliada a oferta de serviços e produtos e a presença de infraestruturas como aeroportos, rodovias, portos que a conecta a outras cidades em várias escalas, desde a global até a local, possibilitando “saltar escalas”. Na difusão por contágio, a transmissão sofre influência da fricção do espaço, ou seja, uma cidade irradia a transmissão para outras no seu entorno. (CATÃO, 2016; FIOCRUZ, 2020; SPOSITO e GUIMARÃES, 2020).

No estado do Amazonas, desde o surgimento do primeiro caso confirmado no dia 13/03 até 13/05, a disseminação da COVID-19 se apresentou em tempos e espaços diferentes, conforme os mapas 1, 2, 3, 4 e 5. Manaus apresentou o primeiro caso da doença e é considerado o epicentro epidêmico no Amazonas. A função da capital no comando da rede urbana, com intenso fluxo de pessoas e mercadorias na rede, que circulam por aeroportos, rodovias e rios, contribuíram para expansão hierárquica da doença, para municípios importantes na rede urbana do estado como Parintins, Tabatinga e Tefé (SCHOR e OLIVEIRA, 2011).

Mapa 1   Mapa 2   Mapa 3   Mapa 4   Mapa 5

Destaques para as infraestruturas ligadas a fluidez no território como aeroportos, rodovias e portos, no processo de difusão da doença. Os aeroportos e portos nas cidades mencionadas possibilitam que a doença “ salte escalas” geográficas representativas para forma hierárquica e as rodovias para contágio, ambas as formas de difusão por expansão ocorrem de forma combinada no estado.

Nos municípios da região metropolitana como Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Novo Airão, Presidente Figueiredo, entre outros, a difusão por contágio, apresentou elevado aumento dos casos ao longo do tempo, ou seja, a conexão com a capital Manaus, os deslocamentos diários da população e o baixo isolamento e distanciamento social da população, foram fatores que contribuíram para difusão.

Em maio, outros municípios vêm cooperando para a difusão por relocação da doença, como Tabatinga, Tefé, Boca do Acre, entretanto, o centro epidêmico Manaus, permanece se expandindo demonstrando no período atual uma difusão híbrida no estado.

A interiorização dos casos da doença, com a difusão em pequenas cidades, demanda estratégias de planejamento do SUS para a garantia da equidade e universalidade dos serviços.

Os deslocamentos para acesso aos serviços de saúde, conforme o mapa 6 baseados na pesquisa na REGIC (2018), demonstraram que o Amazonas possui 90,3% dos municípios com dependência direta do serviço de alta complexidade em Manaus, sendo também uma das maiores médias (462 km) de deslocamento do território brasileiro para tratamento de saúde de alta complexidade.

Além disso, 47,8% dos municípios dependem também de Manaus para serviços de saúde de baixa e média complexidade, com média de deslocamentos de 418 km. A centralidade dos serviços na capital é um fator que aumenta o risco para pacientes de casos graves da doença.

A ampla extensão territorial do estado e as distâncias a serem percorridas podem ser superiores a 1.000 km até a capital. Mesmo que as distâncias entre as cidades sejam menores em quilometragem, a principal via de transporte para o fluxo de pessoas das cidades é fluvial e a viagem pode durar cerca de dias ou semana até a Manaus, o que potencialmente acarretará na letalidade dependendo da gravidade da doença.

Portanto, além do reforço e fiscalização do isolamento social para reduzir a difusão da doença é necessário suporte com ações governamentais conjuntas, no nível municipal, estadual e federal, para o fornecimento equipamentos como respiradores, aumento do corpo de profissionais da saúde, além da implementação de novos leitos de Unidade de Terapia Intensiva e suporte no transporte mais rápido de pacientes graves do interior para capital.

 

REFERÊNCIAS

ALEIXO, N.C.R. SILVA NETO, J.C.; CATÃO, R.C. A difusão temporo-espacial da COVID-19 no estado do Amazonas. Revista Hygeia, Dossiê COVID-19, p.1-11, 2020. No prelo.

CATÃO, R.C. Expansão e consolidação do complexo patogênico do dengue no estado de São Paulo: difusão espacial e barreiras geográficas. 2016, 274f. Tese de doutorado em Geografia, UNESP: Presidente Prudente: 2016 

FUNDAÇÃO OSVALDO CRUZ (FIOCRUZ). MonitoraCOVID-19: Nota Técnica 1, 2 de abril de 2020.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Regiões de influência das cidades. Rio de Janeiro: IBGE, 2018.

SCHOR, T.; OLIVEIRA, J.A. Reflexões metodológicas sobre o estudo da rede urbana no Amazonas e perspectivas para a análise das cidades na Amazônia brasileira. ACTA Geográfica, p.15-30, 2011.

SPOSITO, M.E.B; GUIMARÃES, R. B. Por que a circulação de pessoas tem peso na difusão da pandemia. 26 mar. 2020. Disponível em: https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/35626/por-que-a-circulacao-de-pessoas-tem-peso-na-difusao-da-pandemia. Acesso em 15/04/2020.

 

registrado em:
Fim do conteúdo da página